Ipiauense ex infrator adolescente vira embaixador da ONU

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Como muitos brasileiros, o ipiauense Jeconias Vieira Lopes Neto, de 25 anos, teve uma infância difícil. Aos 8 anos roubou sua primeira caixa de chocolate e não parou mais. Passou quatro vezes pelo Centro de Atendimento Juvenil Especializado (antigo Caje), cumpriu medida socioeducativa e, graças ao incentivo de um professor, transformou sua vida. Hoje, ele se prepara para se tornar o mais novo Embaixador da Juventude da Organização das Nações Unidas (ONU). Assume o título neste sábado (8/7).

Para participar do programa Embaixadores da Juventude da ONU, foi preciso que Jeconias fizesse uma seleção de seus projetos. A primeira etapa do concurso foi uma análise de currículo. Brasileiros de várias regiões se inscreveram e ficaram apenas 50 competidores. Na segunda etapa, a prova era enviar um vídeo explicando o porquê de ser merecedor da vaga de embaixador.

Trajetória no crime
Jeconias enfrentou um longo caminho até chegar ao reconhecimento do organismo internacional. Nascido em Ipiaú, o jovem foi para o Distrito Federal com os pais aos 2 anos de idade. A família moraria em uma invasão no Areal. Sem o mínimo de conforto, Jeconias cresceu em meio à criminalidade da região. Morou por 21 anos no local. Conviva com a violência: assassinatos e tráfico de drogas eram rotina.

“Não tive outro caminho. Aos 11 anos deixei os estudos e me envolvi com o crime. Quando comecei, um dos caras me olhou e disse: ‘E aí, brother, quem vai matar no final das contas? Eu mato você ou você me mata?’ Sempre digo que tive professores do crime, me ensinaram tudo”, detalhou o jovem.

A entrada na criminalidade coincide com a separação dos pais, quando o menino tinha 11 anos. “Meu pai é um grande exemplo de vencedor. Chegou em Brasília analfabeto e hoje é pós-graduado e não vimos isso”, resumiu Jeconias. Apesar do orgulho, ele lamenta que até hoje o pai não é presente em sua vida.

Muita coisa aconteceu desde então. Jeconias acumula mais de 26 passagens pela polícia. Todas elas por roubo. A maioria, ainda na adolescência. Com o tempo, o rapaz passou a usar drogas. Começou com a maconha, depois cocaína, merla e crack. Se entregou ao vício, foi levado ao Caje quatro vezes.

A primeira internação veio em 2007. No ano seguinte, passou pela instituição por duas vezes. Até que, em 2009, ficou no regime semiaberto. “No Caje eu dormia ao som de ratazanas. Sempre tinha alguém brigando ou ferido. Foi uma época de terror mesmo”, relatou.

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O amor o fez querer mudar
No semiaberto, Jeconias conheceu e se encantou por Stephany, sua atual esposa e razão para a sua busca por uma vida melhor. Depois disso, ficou em liberdade condicional por três anos. Em 2012, começou a vender livros para custear os estudos. Por meio da Igreja Adventista do Sétimo Dia, entrou na Universidad Adventista del Plata, na Argentina, e comemora sua formatura em teologia no final deste ano.

“Estudar em outro país não foi fácil. Fui com minha esposa e minhas filhas. A Stephany vendia bolos na rua enquanto eu estudava. Não sabia falar nada em espanhol, não sabia nem o português. Foi então que conheci o professor Laurentiu Ionescu, que me adotou e me reeducou. Mudou minha história”, revelou, emocionado.

Exemplo e incentivo
E foi por meio desse homem que Jeconias conheceu a literatura de Victor Hugo em “Os Miseráveis”, um de seus livros preferidos. “Devo muito ao professor. Ele me levou pra casa dele, me ensinou a falar, me mostrou que a vida é muito mais do que status no crime. Hoje, sinto-me realizado”, disse o jovem.

De volta a Brasília, Jeconias se tornou servidor da Igreja Adventista e luta pela ressocialização de pessoas em situação de vulnerabilidade. Através do Ministério Carcerário Adventista, ele e amigos levam aos presídios educação e incentivo.

Apesar das grandes vitórias, Jeconias ainda carrega uma dor: seus primos e seu irmão mais novo estão presos, envolvidos no roubo de residências no Lago Norte.

“Meu sonho é ver as pessoas felizes e de volta à sociedade. Esse é um mundo muito injusto, sempre volto no Areal e vejo que muitos não estão mais ali. Éramos nove amigos no crime e sobramos apenas dois”, destacou.

Ele se emociona ao falar da família. A mãe, Manoela Bispo, de 44 anos, criou Jeconias e o irmão trabalhando como cozinheira. Aos 40 anos, ela decidiu cursar nutrição e se forma no fim deste ano, junto com o filho. “Ela é meu orgulho, meu exemplo de superação, nunca desistiu de mim”, concluiu.

Metrópoles

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